Instituto dos
Magistrados
do Nordeste

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31/03/2009

JORNAIS E JORNALISMO NA ERA DO TEMPO REAL

Ruy de Queiroz

A internet mais parece um asteróide que atingiu o jornal impresso com toda a força: enquanto que na era industrial a informação era escassa, cara, institucionalmente orientada, e concebida para consumo, na era digital a informação é abundante, barata, pessoalmente orientada, e concebida para a participação. Os números mais recentes falam por si: em 2000, 46% de adultos usavam internet, 5% com banda larga em casa, 50% tinham celular, 0% se conectava à internet sem fio, menos de 10% usavam “nuvem” (conexões lentas, estacionárias em torno de meu computador); em 2008, 74% de adultos usavam internet, 58% com banda larga em casa, 82% tinham celular, 62% se conectavam à internet sem fio, mais de 53% usavam “nuvem” (conexões rápidas e móveis em torno de servidores e armazenamento externos).

Estatísticas recentes indicam que a partir de 2008 na resposta à pergunta “onde você obtém a maioria das notícias nacionais e internacionais?” a internet passou a ser mais citada que os jornais impressos, perdendo apenas para a televisão. Pesquisa da Nielsen revela que a partir do terceiro quadrimestre de 2008, o americano médio passa 142 horas na frente da TV em um mês (5 horas a mais que 2007). Além do mais, as pessoas que usaram a internet lhe dedicaram 27 horas por mês, e os que usaram celular gastaram 3 horas por mês assistindo a vídeos no seu aparelho móvel.

O tempo médio que um domicílio usou um aparelho de TV no período 2007-08 aumentou para 8 horas e 18 minutos por dia, um recorde desde que a Nielsen começou a fazer medidas sobre a televisão nos anos 1950s. No final das contas, conforme o relatório da Nielsen, o que acontece é que pontos de interseção entre informação e pessoas se multiplicam e a disponibilidade da informação se expande a todas as horas do dia e todos os lugares em que estivermos. Isso sem falar no chamado fenômeno da atenção fragmentada: recurso escasso, “a atenção é a ferramenta mais poderosa do espírito humano” (Linda Stone, ex-executiva da Microsoft), e cada vez mais as pessoas vivem num estado de “atenção parcial contínua”. Tudo isso remando contra o jornal impresso como fonte de notícias.

Em tempos de implosão na indústria do jornal impresso, menos mal que há bom senso em meio à turbulência trazida pela internet e acentuada pela internet de tempo real: se para uns a morte dos jornais significa a morte do jornalismo, para outros o momento é bem apropriado para repensar e remediar as falhas do jornalismo, ao invés de acentuá-las.

Em artigo recente no seu blog no portal do Center for Internet and Society de Stanford (“Amnesia in the Face of Crisis”, 19/03/09), Sarah Hinchliff, após lembrar que a geração mais jovem se mostra em grande medida indiferente enquanto que os mais velhos não vêem futuro no jornalismo sem o jornal impresso, diz que embora ninguém saiba exatamente o que vai acontecer na indústria do jornal impresso, fica claro que algo muito sério tem que acontecer. Há algum tempo Paul Gillin (Research Fellow e membro do conselho consultivo da “Society for New Communications Research”, co-coordenador do grupo de mídia social do “Massachusetts Technology Leadership Council”, e autor do blog “Newspaper Death Watch”), vem dizendo que o colapso quase que total da indústria americana do jornal como a conhecemos é inevitável. No artigo recente “Media Apocalypse Foretold” (24/03/09), Gillin diz que o céu está caindo, mas que não é somente para os jornais.

Citando Bob Garfield (autor do livro “Chaos Scenario”, a ser publicado) destaca: em 2008, as vendas de bancas de revista caíram 12%, e ainda caíram mais 22% esse ano; a Bernstein Research prevê uma queda de 20% a 30% em 2009 na receita das TVs em anúncio; na última pesquisa, a Nielsen Media Research anunciou que a audiênca da CBS em horário nobre caiu 2,9%, a da ABC 9,7%, a Fox 17,5% e a NBC 14,3%.

Há quem chegue ao ponto de argumentar que a sociedade e a política americanas estão em vias de mudar para pior, devido especificamente à morte anunciada do jornal impresso (“Goodbye to the Age of Newspapers (Hello to a New Era of Corruption)”, por Paul Starr, professor de comunicação e negócios públicos na Woodrow Wilson School da Princeton University e autor do livro recente “Freedom\'s Power”(Basic Books), no portal The New Republic, 04/03/09). “Podemos estar nos aproximando não do fim dos jornais impressos, mas do fim da ‘era’ dos jornais impressos – a fase longa na história quando os jornais impressos nas principais cidades dos EUA têm sido fundamentais tanto à produção de notícias e quanto à vida de suas regiões metropolitanas.

O argumento se baseia na hipótese de que com o colapso de alguns dos jornais tradicionais, de alguma forma a reportagem investigativa e a cobertura local não mais funcionarão, e isso significará uma nova era de corrução e o colapso da democracia. Em contraponto, Yochai Benkler (professor da Faculdade de Direito de Harvard, Co-Diretor do “Berkman Center for Internet and Society” de Harvard, e autor do livro “The Wealth of Networks: How Social Production Transforms Markets and Freedom”, Yale Univ Press, 2006) no artigo “Correspondence: A New Era of Corruption?” publicado no mesmo dia e no mesmo veículo, afirma que o declínio do jornal impresso não é um prenúncio de nada que se pareça com o fim da democracia.

Segundo Benkler, o argumento de Starr essencialmente considera que parte do coração da democracia norte-americana há muito tempo tem se apoiado nos monopólios de um-jornal-por-cidade e na falta de escolha de mídia. Nas palavras do próprio Starr, “mais que qualquer outro veículo, os jornais têm sido nossos olhos sobre o estado, nossa verificação sobre abusos privados, nossos sistemas de alarme cívico.” O fato é que o cotidiano da sociedade americana já de há muito conta com os jornais como parte da própria cultura, da política, dos negócios, que é fácil esquecer o quanto eles significam para o próprio modus vivendi americano.

Starr prossegue lembrando que os bens públicos são notoriamente subproduzidos no seio da sociedade de consumo, e a notícia é um bem público – e ainda assim, desde meados do século XIX os jornais têm produzido notícias em abundância a um preço barato para os leitores e sem a necessidade de subsídio direto. Mesmo antes da chegada da recessão, a indústria do jornal impresso já se deparava com uma ameaça de morte a partir da ascensão da internet, da queda na circulação e na receita de anunciantes, e de um declínio de longo prazo na própria leitura na medida em que o hábito de se adquirir um jornal na esquina tem aos poucos desaparecido. A recessão apenas intensificou essas dificuldades, mergulhando os jornais numa espiral descendente da qual alguns podem não vir a se recuperar, e outros talvez emergirão apenas como uma sombra do que já foram.

Por sua vez, Benkler lembra que os chamados “diários” eram monopólios, e portanto podiam ditar os preços de anúncios. Isso alimentou uma certa morosidade a partir da qual os jornais se davam ao luxo de subsidiar aquelas partes do jornal que eram claramente bens públicos importantes – notícias e reportagem investigativa. Mas esses altos preços de anúncios estão se inviabilizando. Por outro lado, parte do papel democrático dos jornais tem sido a educação política das massas não engajadas. Ao querer consultar a seção de classificados à busca de empregos, ou a seção de esportes, o leitor inevitavelmente se confrontava com a primeira página, e, portanto, com um caso local de corrução ou algo de grande relevância pública.

Tal exposição acidental induzia uma cidadania minimamente informada e capaz de verificar os piores excessos de governos corruptos. Com tudo isso, embora concordando com a previsão de Starr sobre os efeitos da diversificação da mídia e da competição no modelo tradicional da maioria dos jornais regionais dos EUA, Benkler se declara menos convencido de que os efeitos serão de fato tão danosos para a democracia. Não obstante, é preciso reconhecer que a dispersão da atenção, que se iniciou com as comunicações via cabo e o próprio rádio, e posteriormente coroada pela internet, tem levado a um público mais inerte e mais desinformado. Os membros da sociedade mais politicamente engajados têm feito uso da nova diversidade de ofertas para se juntarem e se tornarem melhor informados do que possivelmente poderiam ter sido no passado. Mas também têm se tornado mais partidários, conclui Benkler. Devido a esses efeitos casados, a derrocada do modelo de negócios (ainda do século XX) dos jornais de fato ameaça minar a forma como funciona a democracia americana e possivelmente uma nova era de corrução.

Por essas e outras, ao que tudo indica, à indústria do jornal não tem sido fácil aceitar o inevitável. No artigo “Newspapers and Thinking the Unthinkable” recentemente publicado em seu blog, Clay Shirky lembra que o problema que os jornais enfrentam não é exatamente que eles não viram a internet chegar, pois não apenas eles a viram já há tanto tempo que precisavam de um plano para lidar com o problema, e no início dos anos 1990s chegaram a formular vários. Um deles era se juntar à AOL, que parecia crescer rápido mas de forma menos caótica que a internet aberta. Outro era educar o público sobre o que se esperava dele com respeito às leis do direito autoral, e nesse contexto, novos modelos de pagamento, tais como o micropagamento, foram propostos. Alternativamente, os jornais poderiam reproduzir as margens de lucro obtidas pelo rádio e pela TV, caso se tornassem apoiados puramente em anúncios. Um outro plano seria convencer as empresas de tecnologia a tornar seu hardware e software menos capazes de compartilhar, ou então fazer parceria com as administradoras de redes de dados para chegar ao mesmo objetivo.

E aí havia a opção chave: processar os violadores de direitos autorais diretamente, e dessa forma torná-los um exemplo a não ser seguido. À medida que essas idéias foram articuladas, havia intenso debate sobre os méritos de vários cenários, mas um cenário era largamente considerado como impensável, e sobre o qual não se discutiu muito na mídia, por razões óbvias. Esse cenário impensável se revelaria como algo da seguinte forma: a capacidade de compartilhar conteúdo não diminuiria, mas cresceria. O uso de cercas de proteção se revelaria impopular. Dessa forma, propaganda digital reduziria ineficiências, e, portanto, lucros. Uma certa rejeição por micropagamentos impedia que tivesse uso amplo. Velhos hábitos de anunciantes e leitores não se transfeririam para o ambiente online. Até disputa judicial feroz seria inadequada para conter a quebra massiva e sustentada da lei. Fabricantes de hardware e software não considerariam os detentores dos direitos autorais como aliados nem os consumidores como inimigos.

A exigência do DRM (tecnologia de gerenciamento dos direitos digitais) de que, ao atacante seja permitido decodificar o conteúdo, seria uma falha insuperável. E aí, processar as pessoas que amam tanto uma coisa a ponto de quererem compartilhá-la as irritaria profundamente. Segundo Shirky, quando a realidade é chamada de impensável, ela cria uma certa doença numa indústria. Liderança passa a se basear em fé, enquanto que os empregados que têm receio de sugerir aquilo que parece estar acontecendo e está de fato acontecendo são conduzidos a departamentos de inovação, onde podem ser solenemente ignorados. Um dos efeitos disso nos jornais é que muitos dos mais apaixonados defensores são incapazes, mesmo hoje, de planejar para um mundo no qual a indústria que eles conheciam está visivelmente se indo.

Marc Andreessen, empreendedor em redes sociais e investidor em startup’s de tecnologia de comunicação em tempo real pela internet, numa entrevista a Charlie Rose em 19/02/09 radicalizou, e afirmou que o New York Times deveria interromper a produção do jornal impresso. Segundo Andreessen, isso provocaria uma alta nas ações da empresa, pois os investidores estão considerando as operações relativas à impressão do jornal em papel como coisa do passado. A conclusão é simples: não há mais valor nas ações relacionadas à produção da versão impressa.

Em palestra proferida na Stony Brook University no início de Março, o Chairman do tradicional jornal americano, Arthur Sulzberger Jr., embora sem apresentar claramente um rumo a ser seguido, reconheceu a dificuldade da situação, destacando que “negócios da internet têm se revelado incapazes de reproduzir a economia do impresso. Poucas pessoas têm se demonstrado dispostas a pagar por notícias online. Os preços de anúncios para o mercado online estão relativamente baixos. E os portais de notícias na web estão pobremente organizados para tirar vantagem do modelo de anúncio contextual que domina a internet.”

Para Tim O’Reilly (CEO e fundador da O’Reilly Media, empresa editora de tecnologia que já publicou mais de 1200 títulos desde a sua fundação em 1978), as organizações de mídia deveriam levar em conta o poder do Twitter em rapidamente atingir seus consumidores alvo. “É a mais pura forma do que nós publicadores fazemos: rastreamos uma comunidade e aí prestamos atenção a algumas coisas mais que a outras, e espalhamos.” Em um certo sentido, O’Reilly sugeriu que isso é jornalismo, “cumpra-se”, pequeno. “O Twitter é o jornal mais mínimo.” Em tom de reanimação à indústria do jornal, O’Reilly lembra que as instituições podem até se assustar com a onda das mudanças, mas novas instituições acabam surgindo.

As necessidades profundas às quais os jornais servem não estão indo embora, e certamente encontraremos novas maneiras de servir a essas demandas. Como diz Shirky, “Quando deslocamos nossa atenção de ’salvem os jornais’ para ’salvem a sociedade’, o imperativo muda de ‘preservem as instituições atuais’ para ‘façam seja lá o que funcione.’ E o que funciona hoje não é o mesmo que costumava funcionar.” O formato dessa reinvenção já pode ser visto em áreas especializadas. Em meados dos anos 1990s, Michael Leeds, CEO da CMP Media Inc., no seu primeiro dia como um dos titãs dos jornais especializados em tecnologia de computadores, disse a O’Reilly que “se ele não pudesse levar um de seus jornais a US$50 milhões em receita em 3 anos, ele o fecharia pois não valeria a pena.

Hoje, muitos dos jornais que ele possuía já se foram, e mesmo assim pequenas firmas como Techcrunch, Mashable, e ReadWriteWeb são bem sucedidas (e fazendo um trabalho igualmente bom de cobrir as notícias da indústria de computadores) a uma ordem de magnitude a menos de receita que a CMP teria rejeitado uma certa vez.” E conclui: “o que interessa acaba sendo feito. Mas ninguém tem garantia de que seu negócio como o concebeu hoje será preservado, especialmente em qualquer escala ou rentabilidade. Portanto, tenha fé. O mundo como o conhecemos está sendo quebrado. Agora, vamos continuar reinventando-o!” Usando uma expressão de Sarah Hinchliff, a internet está nos forçando a repensar o modelo tradicional de jornal e jornalismo. Resta aproveitar para fazer surgir um novo modelo, em sintonia com o tempo real.

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